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20090414

andrew bird.




Se tivessem faltado a Andrew Bird algumas das condições necessárias para ser um primoroso músico, daqui a uns anos ele seria, com certeza, uma personagem parecida com o mais velho habitante do bairro Christiania aka Free City, em Copenhaga, que toca violino e vive num quinto andar, rodeado por memórias e quinquilharias, e sem elevador.

No seu novo album Andrew Bird oferece-nos sons da natureza, dos portos e cidades por onde viajou, donde trouxe ritmos cadenciados e olhares, e faz-nos escutar o clamor de um que acredita ser, primeiro de tudo, animal. Os relatos poéticos e caminhos sonoros destas canções, construídas e interpretadas com agudeza e talento, revelam versos como:

“so they took me to the hospital, they put my body through a scan, what they saw there would impress them all, for inside me grows a man...”





Constantes imagens, quase fantasmagóricas, que revelam a estranheza de um homem perante o mundo em que vive, e a frieza de uma sociedade desumanizada e avessa à mudança. Andrew Bird proclama, mais uma vez, o nosso fim. Exalta a capacidade de cada um, enquanto partícula, entre tantas outras. Rejeita o ódio e a redenção perante o que é exigido
("Love or hate acts as an axis, so procreate and pay your taxes").

Os seus medos estão em cada linha e persistem na renúncia à vida moderna.
Novamente, e cada vez melhor, ele cria puzzles (i)lógicos em que as canções ganham perspectivas tão complexas que nos sentimos (agradavelmente) submersos pelos seus pensamentos engenhosos. Podemos olhar para este conjunto de liberdades criativas de Andrew Bird quase como um manifesto pela preservação da relíquia que é a vida individual. Um longo exercício sobre o desastre do nosso projecto enquanto sociedade.
Imagino que o seu desejo seja poder continuar a ouvir a natureza e os seus sons, aqueles que tão bem utiliza e recria.




Rita Cabral, Atol.

20080528

CAT POWER & The Dirty Delta Blues

28maio coliseu do porto



Em Lisboa foi assim:

"Como cresceu Cat Power – de figura de estimação da cena lo-fi / indie americana, a intérprete de luxo. A transição tem sido gradual e nunca definitiva (há sempre pegadas da Cat Power de ontem e de anteontem na Cat Power de hoje), mas discos como o mais recente The Jukebox , colecção de versões de gente como Bob Dylan, Joni Mitchell ou Hank Williams, põem à vista a excelência de Cat Power, a intérprete. "


"A espera tornava-se já dolorosa quando a figura de Cat Power – de calças justas pretas, sapatos (de sapateado?) brancos e rabo-de-cavalo bem altivo – se vislumbrou. Ou, para dizer a verdade, quando a sua voz esculpida em lava se fez ouvir. Só aí todo o Coliseu, esgotado em noite de chuva, se apercebeu que em palco havia uma mulher a tentar fazer um «moonwalk» muito personalizado."


"Os ânimos exaltaram-se com «Lord, Help The Poor and Needy», que o Coliseu decidiu acompanhar com uma saraivada de palmas, e com a fabulosa «Song For Bobby», o único original de Jukebox , escrito a pensar em Bob Dylan. Foi por esta altura que Cat Power, que distribuiu simpáticos «obrigadas» a torto e a direito, deixou escapar uma frase que dirá muito do seu estado de espírito actual. «Good enough – I’m OK, I’m lucky».


Mesmo a versão espectral de «Blue», de Joni Mitchell, com teclados distantes e guitarra subliminar, acabaria em «pranto», com Cat Power a repetir enfaticamente o nome da cantora canadiana e a retirar-se por breves segundos do palco.
Seguir-se-ia uma aplaudida passagem pelo álbum The Greatest, pela mão de «The Moon», «The Greatest» e «Lived In Bars», e a preparação de uma das despedidas mais longas de que há memória nos palcos portugueses.


O adeus começou com a apresentação da banda,
prosseguiu com uma jam, desembocou em momentos quase gospel e num tema em espanhol, e levou Cat Power a pedir que se acendessem as luzes para ver as «personas» que a aplaudiam. Aparentemente desnorteada mas sempre intensa, a autora de «Nude As The News» parecia alimentar-se da sua própria coragem e, a meio da versão de «I’ve Been Loving You Too Long (To Stop Now)», de Otis Redding, lançou-se numa investida pelo público, disparando aguerridos «I love yous» pela incendiada plateia.

Dizer adeus foi-lhe complicado: Cat Power parecia mesmo incapaz de virar costas ao público, retribuindo cada aplauso com uma pirueta, uma vénia repenicada, simulacros de sapateado, ainda mais vénias e c
ontinências. Ao final desses dez minutos que Cat Power demorou a largar a mão do público português, e ao final das quase duas horas de concerto, não ficámos mais perto de entender quem é Chan Marshall. Esquiva, imprevisível e fascinante, confirma porém tudo o que de bom se possa dizer sobre a sua raça – felina, e de mulher. "



ALINHAMENTO
Don't Explain

A Woman Left Lonely

Silver Stallion

New york

Lost Someone

Dreams
Lord Help the Poor and Needy
Dark End of the Street

She's Got You

Metal Heart

Making Believe

Hey Aretha
Ramblin' (Wo)man
Blue
Where Is My Love

The Moon
The Greatest
Lived in Bars
Life of the Party
Could We

Satisfaction

Black Angels (Angelitos Negros)

I've Been Loving You Too Long (To Stop Now)

20080517

caravana rui manuel amaral



Caravana: um desfile de pequenos e grandes absurdos corporizados em pequenas criaturas de nomes estranhos. Uma fauna estranha mas nossa próxima, nossa vizinha, nossa irmã. A microficção portuguesa ganha em Rui Manuel Amaral, e nesta Caravana, a sua carta de alforria.


“Estamos tão habituados a sofrer ou a vergastar o absurdo do país, que nos esquecemos que há um absurdo maior, tão antigo quanto a humanidade e tão salutar quanto arreganhar os dentes à ordem do universo. Os micro-contos de Rui Amaral fazem-nos rir de uma forma metafísica e perfeitamente natural. Eis um autor que sabe que o absurdo é irmão gémeo da lógica do mundo, e não receia experimentar a sua companhia. Não há muitos em língua portuguesa. Devíamos tratá-lo como espécie protegida.” Luís Mourão

Rui Amaral nasceu no Porto, em 1973, cidade onde vive.
É coordenador literário da revista aguasfurtadas. (http://revista-aguasfurtadas.blogspot.com/)
Colabora no blogue Dias Felizes (http://last-tapes.blogspot.com)
e é também baterista da banda rock The Jills (
http://www.myspace.com/thejills999).



20080405



MUSIC HOLE
já saiu o novo album!




http://camille-uk.emi-artistes.biz/