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20080904





"Há dias em que tudo o que vejo me parece pleno de significados: mensagens que me seria difícil comunicar a outros, definir, traduzir por palavras, mas que precisamente por isso se me apresentam como decisivas. São anúncios ou presságios que me dizem respeito a mim mesmo e ao mundo ao mesmo tempo: e de mim, não os acontecimentos exteriores da existência mas o que acontece cá dentro, no fundo; e do mundo, não um facto singular qualquer, mas o modo de ser geral de tudo. Compreendem pois a minha dificuldade em falar disto, a não ser por alusões."


"Se numa noite de Inverno um Viajante", de Italo Calvino (1979)



20080720

dan collier links




achei lindo! conexões e dependências sem fim.

designer dan collier

20080517

caravana rui manuel amaral



Caravana: um desfile de pequenos e grandes absurdos corporizados em pequenas criaturas de nomes estranhos. Uma fauna estranha mas nossa próxima, nossa vizinha, nossa irmã. A microficção portuguesa ganha em Rui Manuel Amaral, e nesta Caravana, a sua carta de alforria.


“Estamos tão habituados a sofrer ou a vergastar o absurdo do país, que nos esquecemos que há um absurdo maior, tão antigo quanto a humanidade e tão salutar quanto arreganhar os dentes à ordem do universo. Os micro-contos de Rui Amaral fazem-nos rir de uma forma metafísica e perfeitamente natural. Eis um autor que sabe que o absurdo é irmão gémeo da lógica do mundo, e não receia experimentar a sua companhia. Não há muitos em língua portuguesa. Devíamos tratá-lo como espécie protegida.” Luís Mourão

Rui Amaral nasceu no Porto, em 1973, cidade onde vive.
É coordenador literário da revista aguasfurtadas. (http://revista-aguasfurtadas.blogspot.com/)
Colabora no blogue Dias Felizes (http://last-tapes.blogspot.com)
e é também baterista da banda rock The Jills (
http://www.myspace.com/thejills999).



20080427

"ah, bruta flor do querer"
Caetano Veloso



"O nu é o arrebatamento e o desejo fonte de criação, de embriaguez. Os corpos vibram, desenrolam-se, arqueam-se no orgasmo, desafiam as leias da gravidade, os sexos abertos estremecem e jorram no côncavo das pernas abertas." Fernando Pessoa





Ode
Antínoo
O amor, quando se revela...
Dá a surpresa de ser.
Fernando Pessoa

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha
Horas rubras
A tua voz na primavera
Frémito do meu corpo...
Charneca em flor
Realidade
Florbela Espanca



*delícias de Auguste Rodin

20080419




palavras que alimentam!


audiolivros

uma iniciativa que dá voz a palavras escritas.
objectos sonoros cúmplices.
sonoridades apaixonantes.
e ilustrações belíssimas.


(gostei particularmente do "Tabacaria" de Álvaro de Campos, com a voz de Maria do Céu Guerra e sonoplastia de António Martins.)

visitem, é um espaço delicioso! http://www.boca.pt/

20080417

Jorge Molder

Álvaro de Campos




O que há em mim é sobretudo cansaço -

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,

Os amores intensos por o suposto em alguém,

Essas coisas todas -

Essas e o que falta nelas eternamente -;

Tudo isso faz um cansaço,

Este cansaço,

Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada -

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

Ou até se não puder ser...

E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,

Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...

Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,

Um supremíssimo cansaço,

Íssimo, íssimo, íssimo,

Cansaço...

Álvaro de Campos




Nasceu em Lisboa em 1947. Estudou Filosofia.
Vive e trabalha em Lisboa.



"As várias séries de fotografias que Jorge Molder tem vindo a trabalhar desde meados dos anos setenta vivem em torno de dois vectores essenciais: a duplicidade e a serialidade. A duplicidade advém da encenação dos auto-retratos ou das auto-representações, jogo quase omnipresente em torno de alguém que nos olha como se fosse um duplo do artista, um seu fantasma. Já a serialidade provém de duas características, em que uma delas é operativa e a outra é cognitiva. Por um lado, fotografar é funcionalmente um acto de reproduzir, é um dispositivo reprodutivo - de pessoas, coisas, ambientes, situações. Todavia, esse dispositivo reprodutivo como que suspende o tempo, como que fixa o instante. E, fixando o instante, reflecte-o, torna-o reflexo, isto é, capaz de ser reenviado outra vez. Mas, por outro lado, a serialidade, para usar as palavras de Walter Benjamin, traduz a perda da aura."




"Ora, as séries de Molder são o lugar dessa memória involuntária. Só que, na sua serialidade íntima, asfixiam qualquer possibilidade narrativa, deixando em suspenso as sensações, as figuras, os sintomas que essas figuras implicam. Os sintomas, sabemo-lo desde Freud, são o regresso do recalcado: o duplo de si mesmo, a reprodução do mesmo. Que só as sensações, imbricadas no claro-escuro, na luz e na sombra, conseguem trazer à superfície do espelho (que, até, pode ser água petrificada em gelo, como acontece numa das séries) por um instante, o instante absoluto do jogo, da prestidigitação, da colecção."




"Será esse instante absoluto um outro nome para um determinado cadavre-exquis, tão ao gosto dos surrealistas, e que cada série consagraria? É possível, apesar do cadavre-exquis ser uma narrativa do inconsciente, típica das associações livres, mas também um outro nome para o acaso, para o jogo, para a prestidigitação, todos passíveis de colecção. Como acontece com as séries de Molder (o ás, o dado, os punhos ou o colarinho imaculadamente brancos, as caixas enquanto guardiães do tempo), onde a metamorfose e o castelo (de cartas, de arbítrio), evocadores de Kafka, surgem inequivocamente. A metamorfose evoca o instante da passagem de algo ao seu estranho (uma desterritorialização, para usar o conceito de Deleuze e de Guattari, donde o lugar de um discurso não-institucional) só que, aqui, à sombra de um passado tutelar (quem domina o castelo é, afinal, o duplo) onde as imagens têm ainda o peso da aura."



"É, pois, esta tensão entre presente e passado que possibilita a não-narratividade das séries de Jorge Molder. É, ainda, este jogo de des-significação das imagens que o duplo potencia. Só que, por detrás dele, no instante absoluto, um outro olho espreita - mais predador em relação ao duplo do que em relação a si próprio. Afinal, a estética romântica passou por aqui. Tal como, consequentemente, passa por aqui a não resolução do plano da transcendência e do plano da imanência, melhor, uma resolução que Molder quer que esteja em suspenso. Entre um e o outro, o instante - o absoluto."